2008-03-31   Quando Um Crocodilo Come o Sol
Entrevista com o autor do livro e jornalista Peter Godwin

A propósito das eleições no Zimbabué o Jornal do Brasil publicou recentemente uma entrevista com o autor do livro Quando um Crocodilo Come o Sol (Quando Um Crocodilo Engole o Sol, na versão brasileira), Peter Godwin.

Entrevista que aqui reproduzimos:

Quando um crocodilo engole votos

Fred Raposo



Corre a lenda por certas tribos na África que, quando o crocodilo celestial engole a estrela que nos dá vida, é sinal que os deuses estão insatisfeitos com o homem. No livro Quando um crocodilo engole o sol, o escritor e jornalista Peter Godwin observa que, no início do século 20, aconteceram dois eclipses totais. O mal presságio se materializa no relato de violência, corrupção e opressão que assola o Zimbábue após 28 anos do governo de Robert Mugabe. Tudo isto em meio à busca pelas raízes, relações familiares e a doença do pai.

O livro traz a idéia de que o branco na África é similar ao judeu em todo lugar. Como foi crescer em família de brancos e judeus no Zimbábue?

¬A idéia de perseguição, que tento não exagerar, é baseada na experiência do meu pai. Se você pertence a uma minoria com identificação religiosa, social, econômica, ou com outro fator que o coloque em posição mais bem sucedida, será vítima em potencial. Isto ocorre com diferentes tribos em qualquer lugar do mundo. Com meu pai aconteceu duas vezes: como judeu na Polônia e como branco na África.

Depois da independência, em 1980, o Zimbábue acolheu bem os brancos. Mas o processo de desapropriação dos fazendeiros brancos, a partir do ano 2000, foi violento. A que se deve esta mudança de tratamento?

¬Os brancos viveram em paz nos primeiros 20 anos. Havia um espírito de reconciliação após a independência, para enterrar a injustiça e concentração do poder político do passado. A partir de 1999, Mugabe fez parecer que os problemas econômicos e sociais do país se deviam às diferenças entre brancos e negros. Este olhar revoltou muita gente. Três quartos do povo, entre 18 e 65 anos, deixou o país, coisa inimaginável noutro lugar. É o problema do partido político com formação militar no DNA. Cria-se o sentimento messiânico de como as pessoas devem agir, um controle. Só há democracia com alternância no poder.

Como boa parte da população, você deixou o país, mas retornou diversas vezes como jornalista. Como viu a mudança ao longo dos anos?

¬Para mim foi diferente em relação às outras pessoas. Quando Mugabe perdeu o referendo para desapropriar terras dos brancos, juntamente com o foco, em 2000, eu já havia coberto um massacre na África do Sul. A comunidade internacional não mexeu um dedo. Durante a Guerra Fria, o Ocidente estava mais do que feliz em apoiar Mugabe. A grande tragédia do país é não ter produtos de exportação como petróleo e terrorismo. A África do Sul poderia enfraquecer o regime, se quisesse, cortando fornecimento de alimento e transporte. Todos têm seu grau de responsabilidade.


É quase impossível dissociar memórias do Zimbábue da sua família. Não teme expor detalhes tão íntimos?

¬Não sou famoso, uma celebridade. As pessoas não têm interesse no que comi no café-da-manhã. Procuro tratar de temas familiares a todo mundo, como envelhecimento, descobertas, segredos, sofrimento, o conceito de lar. Quando paramos para pensar onde pertencemos, pensamos em coisas universais. Tento fazer isso contando uma história, que é baseada nos meus pontos de vista, minhas opiniões.

Sabe se Mugabe leu o livro?

¬Não sei se leu ou não. Sei que muitos na África leram, e que é um best-seller. Muitos aspectos que abordo no livro contribuem para se pensar o futuro, de brancos e negros. Não me importo se Mugabe leu ou não, e sim que o maior número de pessoas saiba o que se passa.

Você acredita que as eleições serão livres e justas?

¬Se as eleições forem livres, não tenho dúvida que Mugabe perderá. Mas estou certo que haverá fraude. Faltam veículos, urnas, eletricidade, voluntários, alimentos, enfim, infra-estrutura. Esses caras jogam sujo, são brutais. Dependem do ditador para viver e são capazes de tudo se acharem que vão perder controle.


Perfil
Peter Godwin

É filho de pais ingleses que se mudaram para a Rodésia ¬ futuro Zimbábue ¬ no fim da década de 40, onde nasceu e foi criado. Casado com uma inglesa, mora nos EUA e tem dois filhos. Lançado no ano passado, Quando um crocodilo engole o sol logo chegou à lista dos mais vendidos

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